Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

19 de abr de 2014

A Casa e a casa de Benta



Na casa repintada
tudo estava em seu lugar,
como havia sido.
O rádio e a gaiola,
as sombras assaltando os vivos,
a bacia de ágata.
Na casa respiravam livros antigos,
velhos livros pesados,
nunca lidos.
Espelhos emoldurados refletindo almas
assombravam gatos,
gatos pachorrentos,
pardos e tigrados.
Os doces de goiaba,
os doces na janela,
os doces vendidos a retalho,
o cheiro penetrante dos doces feitos na véspera.
As folhas da janela sempre aberta,
oferecendo silêncios
e o arrastar lento de chinelas,
o ruído metálico das moedas miúdas
dançando no pote,
a tosse rouca de sinhá Benta,
a loucura inventada de Sinhá Benta,
suas rezas noturnas, as abluções, o purgatório.
Demônios andavam por lá, ela dizia.
Circulavam, dizia-se, por noites afora,
sem descanso, por sua cabeça.
Na casa rescendendo a tinta fresca
o odor dos lírios e de outras flores,
a pintura que desfazia os outros
detalhes...os mínimos
e o mais importante: nada havia lá fora!

Adonis k.

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