Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

18 de ago de 2012

Montanha e Vale



Fomos unos rodopiando
pelas curvas,
tropeçando risadas.
Não havia sinônimos para esclarecer
nossos caminhos.
Uma fé louca na chuva
que clareava nossas almas
e o sol que esfriava toda a raiva
do mundo inerte.
Um mundo inerte que girava,
que fazia qualquer sorriso
congelar.
Havia um tempo no passado
e um tempo obscuro que plainava
sobre as folhas das árvores menores.
Nós íamos revelando coisas,
éramos circenses, tristes palhaços
em trapos. Íamos assim, em carrosséis.
Crianças vinham, crianças iam,
vinham pais, prefeitos, sacerdotes
em trajes pretos.
Havia bandas de música e algodão doce.
Havia pipoca e suco de maracujá.
Havia tanta cor...!
Mas nosso toldo derreteu diante do mundo.
Derretemo-nos,
naufragamos ambos, arriamos velas. Sentamo-nos
diante de uma realidade austera, fomos engolidos.
Engolidos na primavera.
Raspei o bigode, a caixa de maquiagem foi roubada.
Meus colares, os brincos, as coisas...
Minhas roupas, doei. As suas, nem sei.
Pelamo-nos
e
certa vez,
já moribundos e maltrapilhos,
no palco improvisado, de onde o nome é nada
declarei o poema supremo, em voz alta:
" É tudo em grego,
não fosse vergonha ignorar latim.
É grego prá tudo: ódio, alegrias, problemas,
os sentimentos mais íntimos. E ainda há mais:
Transam em grego...", do Juvenal.
Ninguém aplaudiu, o povo não entendeu.
Nem eu mesmo entendia.
Jogaram-me ovos, tomates, cuspiram em minha cara.
Arrancaram-me a peruca.
Desci do mundo e pedi prá deitar na sombra do muro.
Havia um muro.
Eu me criei sozinho e condenado me livrei.
Me livrei e me livrei com cada pouco que fiz para fugir
das grades da prisão. Via os homens aprisionados e eu,
um liberto sem contas, sem colares, sem documentos,
via os homens.
Mesmo assim tornei-me o toldo derretido
diante de meus olhos, no passado.
Um toldo avermelhado.
De bigodes raspados e já há anos sem a sua companhia
encontrei a base de uma montanha de pedra escura.
Foi durante uma estranha caminhada.
Era uma linda montanha. Se escalei tudo nem sei.
Escalei.
Encontro-me aqui, agora, lá, observando o vale.
Se valeu, não sei, ninguém sabe, nem eu rei !


Adonis K.

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