Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

12 de out de 2010

Impensável Blues





Foi no interior de um bar
de blues você e eu
eu e você e a banda
que você achou incrível
e eu nem ouvi eu só via
você e nem me lembro
de mais nada.
Uma agitação...
não faz mal que horas são
não faz mal pisar no meu pé
não faz mal que frio!
Um beijo com gosto de soda
limonada e rum,
um beijo com gosto de Amarula,
de tequila queimada. Tudo Blues!

Adonis k.

Piroudoscópio



Eu vou partir
sorrindo
por caminhos doces
como algodão,
colorido poste
de parque de diversão.
Aos domingos vou partir sem volta prás segundas,
pirar um pouco lúcido e um pouco delirante,
vou tropeçar bastante,
vou ler nada.
Assim quem sabe derreter
tal qual
sorvete de casquinha sob o sol.
Tal qual minha vizinha,
coitada,
sofrendo calada em cascata.
Vou abrir esta janela
aos poucos,
prá ver o ar entrando aos goles.
Beber café com Melhoral,
seis injeções de Duotrill,
boas doses de Benzetacil,
Fanta com Omeprazol.
Eu vou tomar um Piroudoscópio letal,
sair fardado de Nabucodonosor
no carnaval, fantasiado de tudo.
Eu saí de casa prá ver o sol nascer.
Choveu, não deu.
Foi padaria na cabeça,
de novo,
pingado com pão e manteiga,
um ovo.
Adonis K.

A vida exaurida.



Não é brincadeira,
é insana labuta e orquídeas,
é suco de uva e bolinhos
de chuva,
reflexões após o jantar.
Saídas de pronto
à francesa,
nas sextas
legumes na mesa.
Café e adoçante,
jornais e revistas,
fanzines e o banho.
Não é brincadeira arrastar a cadeira
pro canto,
vestir-se de abril,
votar no vazio.
Não é brincadeira viver
um momento perdido,
olhar o relógio e correr
exaurido
e subir as escadas aos pulos.
Não é brincadeira morrer
no minuto seguinte
gritando socorro
pro guarda da esquina.
A vida é um baile de máscaras,
eterno retorno
de víscera exposta.
Qualquer que respire
o colosso
aguarde sem choro
a chibata temida.
A vida é de morte - é um circo - de abate e de corte
rondando as alcovas,
velando por nós.

Adonis K.

meu bem



teus passos
macios
no telhado de vidro
eu te vi e ouvi
desde ontem.
o teu canto
e eu nu
sem dizer
que te amo
e o quanto.

te quis sem querer.

é a festa do dia
e a noite
e os dias passando,
é a vida invadindo
mimando os lençóis
e teus passos macios
no telhado de vidro
eu sei quando.


Adonis K.

9 de out de 2010

Adeus é fio de navalha.



Um adeus parece longo mas é
curto e breve
são palavras engasgadas
mudas
quase um sopro do entulho
dos dramas que levam a alma.
Quando muito um abraço
e um laço que a gente
sente
afrouxar.
Um adeus é o tudo
que o mundo
vem dar ,
é o ritmo fora
a cadência
o lamento
um momento sem fotos,
o registro entre corpos
acenos
sorrisos dormentes.
Um instante sem cor
visceral
que fica prá sempre.

Adonis k

Bordel no calor da hora



Um olhar e um sopro
no ouvido
a saliva escorrendo
pelos quatro
cantos
da boca
Maldita!
Mais uma dose de gim...
O cheiro cruel do perfume
barato
e sovaco e sopapo e lotado
estará o botequim.
É sábado e quente,
o relógio e a porta e a porta e o relógio,
o relógio e a porta e o olhar
e a vontade
bebendo por mim.
Apagam-se as luzes
parece teatro
nem vejo no escuro
o que vejo eu te juro
me envolve em cetim.

Adonis K

Reminiscências Indecisas.



A pele macia e um som e um filme
antigo eu vejo na tv da sala da frente
da casa intranquila enquanto o gato de minha irmã
pega um sol na varanda ao lado de uma bicicleta
laranja que foi de meu avô.

O pneu está furado.

Duas plantas enormes ao lado do portão
da frente e mais uma menor no corredor.
Um tio cego de bengala sempre mau humorado
batendo na porta do banheiro
irritado e nervoso e eu assistindo
um comercial de shampoo.
A linda modelo sorri, eu a beijo,
ela está apaixonada e eu tenho um cavalo veloz.

Papai chega do trabalho.

-Boa noite, tudo bem? Fez suas lições? Foi bem na prova
de matemática? Que filme é esse? Não tem nada prá fazer
a não ser ficar na frente desta maldita televisão? Vai ler
um livro vai lamber sabão vai pro seu quarto vai comprar pão.

Vovó ronca alto.

Nem sei como foi que o tempo fechou, enferruscou-se de repente
e tudo ficou cinza e um vento forte arrancou as cortinas e bateu
todas as portas e janelas e trouxe muitas folhas secas até a sala
de visitas que minha mãe havia encerado e veio uma chuva como
nunca vi igual. Esquecemos o cachorrinho no quintal
e eu me arrependo até hoje de não ter ido lá fora buscar.
Eu não tive coragem. Ele morreu.


Adonis K.

8 de out de 2010

Boate Azul


Cantos por dentro
da Boate Azul,
som azul,
difuso organismo,
difusos batons escarlate
e carmim,
Dançarinas
megeras sinistras tarântulas negras,
docinhos de pera,
amendoim.
Entre Brilhos
nos meios,
sutiãs sorrateiros,
dinheiro
sem fim.
Lamentos efêmeros, caldos
de cana,
baralho, bilhar,
calcinhas vermelhas...
Chicken Broth my God sem mim!

Noites que brilham
na noite de prata
do homem que dança
sem pressa,
no abraço ligeiro,
A Carteira.
Nos cantos
por dentro bebendo
a ressaca do outro: Agenor
da Silva Pereira,
o doutor.

Mulheres redondas,
risonhas
prá ele,
são dele as risonhas mulheres
de pernas
redondas
do dia do outro
na cama e a carteira.

O couro esquentando...
(Do caldo caliente
de bocas pequenas, Galinãs hermosas!)
Torradas douradas
na noite arranjada
das gatas peladas
por dois mil reais.
De Brinco & Colar nuas todas as gentes.

Cerveja gelada luz tênue Abajur
colorido
e certezas apenas
pequenas,
os gozos restritos.
Coisas da porta prá fora. O céu
não se vê
do bordel.

Adonis K.

Quando porventura respirou-se entre nós



Quando estive em certos lugares
de mim mesmo e de outros raros
em ocasiões distantes daqui e
de agora
era outro

Havia um ser e um candelabro.

Quando o justo imaginário
e as festas de aniversário
dividiam risos e apagavam
velas
todos nós éramos um fato

Havia seres e anjos anônimos.

Quando as rugas vieram
cobrindo adúlteras a alma
e o desespero da noite
de quem vai morrer
tomou forma

Havia flores e pássaros mudos.

Quando enfim tomamos rumo
e nossas vestes transparentes
refletiam o escuro
tateávamos um mundo de eras
com mãos invisíveis

Havia vida nos jarros de barro.
Éramos poucos e éramos tudo.


Adonis K

4 de out de 2010

Caminho e ninguém necessário.



Impressionante! Não há companhia
para alguém que veio só,
transeunte de agoras. Não há lembranças
que cheguem,

que vazem

transbordem nas mentes. Nada que eu diga
fará este metal derreter
nas formas de hoje.
O ferreiro está taciturno.
Nenhum cão guardou a casa que não suportou.
Taciturno o vento lúgubre e
nenhuma alma nos campos,
ninguém.

Todo o mal liberto vagando e funda
está
a revolta e a dor,
onde há dor e há dor tanta,
não há volta.

(Signatários em ternos escuros,
impassíveis. Gente rude, enregelada.
Nos dedos, anéis.)

Tortos caminhos doravante sóbrios,
úmidos,
por vezes largos,
tortos e onipresentes,
ambíguos.

Nenhum cão acompanha o homem só.
Nenhuma lembrança (nem sombras).
Transeunte de agora que sobe
a montanha. Largos caminhos,
veredas, pocilgas, tapete de plantas,
vertente de água que lambe o lugar.

Adonis k.

Quando vi já era nós.



Foi muito mais divertido
o que o homem trouxera
escondido
debaixo do braço. Era um brinquedo estranho...
O parque estava repleto de cantores.
Nem mesmo a fonte cessara de jorrar,
água límpida em todas as direções...
Era primavera. Fomos livres.
Nossos passos o encontro a relva,
tudo o que a vida nos beijou!
Era clara a manhã de nós dois os olhos
e o brilho da alma liberta às pressas
dos escombros.
Nenhum de nós deu corda
nos relógios,
nenhum chorou o abraço
mas fomos juntos
pra onde
o tempo solto nos levou.

Adonis K.

2 de out de 2010

The end sem fim



uma vela acesa
o calor de toda uma vida
apagou-se de vereda

imediatamente

alguém abriu a mala
repleta de manuscritos.
Houve falas.

um tempo houve
breve tempo
um sopro apenas

uma vela acesa
sobre a lareira
sobre a lenha
sobre a telha.

Tão triste o canto...
um sopro apenas
um sussurro.


Adonis k.

Abraço fraterno e voz à León Felipe Camino Galicia



Varrer as cinzas
do que ficou
da alma tênue
por quê?
Se tênue, que fique
livre
de varreduras
(que arranham o ventre
de gente de fato)

que não anda prá trás
que não anda prá trás

Cinzas que o vento leve.
Cinzas que flutuem.
Que cinzas jamais
coloridas
reacendam
coloridas
reacendam mágoas,
Nos limites da resistência,
à ilharga
de todos os abraços.

"Toda la luz de la tierra
la verá el hombre
por la ventana de una lágrima...”

E nos vamos de moto sorrindo enquanto o amigo nos envia um recado.
O amigo nos envia seu peito apertado.
O amigo nos quer bem
a seu lado, leio.
E leio:

“... mi éxodo es ya viejo.
En mis ropas duerme el polvo de todos los caminos
y el sudor de muchas agonías”.

E a estrada vem gorda de curvas,
pungente,
cheia de precipícios a arrepiar
beijando
o ronco dos motores poderosos.
Há um tronco e alguém sobre ele,
sentado, alguém fuma sobre ele,
inquieto.
Sobre ele um mundo:

“Te espero...
en algún sitio estoy esperándote...”

E já não espero que cinzas perenes,
descuidadas,
intranquilas,
mordazes,
satíricas,
sobreponham-se as nuvens
do quintal de todos nós,
ciganos sem ilusões.
Nós e os nossos varais metafísicos
no colorido tardio dos lençóis,
dos lençóis
dos
ciganos sem corneiras.

então me vem
de dia e de noite
também,
num bote,
León Felipe Camino:

“Tuya es la hacienda
la casa
el caballo
y la pistola.
Mía es la voz antigua de la tierra
y me dejas desnudo y errante por el mundo.
Más yo te dejo mudo... ¡Mudo!
¿Y cómo vas a recoger el trigo
y alimentar el fuego
si yo me llevo la canción?”

(remando)

E com a vassoura dependurada
num prego,
num prego qualquer,
enferrujado,
para nunca mais varrer,
ao lado de grandes bacias
d'água
despeço-me do
rio que me alimentou
os rins
na casa que este amigo
um dia disse:

“De rodillas. Escuchad.
La Justicia se defiende con una lanza rota y una visera de papel”?


Adonis k.

Varais em Dó Menor



Calei
o que queria
gritar
do alto do prédio,
calei-me com a boca
costurada
pelos fios
das amarras do mundo.
Um mundo pequeno,
sem vales,
sem mares,
contido na mala
decrépita,
(sem nem um sorriso)
surrada valise de viagem.
Calei-me diante
do imenso varal colorido,
lençóis estampados,
blusões pesados,
intrigas.
A voz que não saia,
embutida.
O abraço contido,
o chorar escondido,
o jamais.
Calei-me por dentro,
mas cá entre nós, você sabe:
Sentei-me diante dos anjos,
por entre demônios em brasa,
e sem recuar
os meus olhos
falaram por nós.

Adonis K.

Por saber que horas são invado o sonho.



Caí do mundo,
lamento.
Foi no chacoalhar do tempo,
num instante.
À beira dos caminhos deitado
fiquei
emudecido e pasmo.
Mas foi quando nem me lembro,
foi num sonho tardio que nem sei.
Crepitava o fogo,
luz na escuridão.
A oca.

Resgatado em eras maias,
talvez
na Festa do Sol,
vesti-me de lua.
Era um sonho...outra época.
Já não mais soterrado
por magias,
por mandalas salvo e os guias
eram pajés, índios antigos,
gente da mata,
Aicanãs e Jarauaras,
Panarás.
Com eles
fumei o cachimbo da Paz...

Caí do mundo numa tarde de setembro.
Eu lembro...
Chovia muito, estava deitado.
Uma rede colorida, o frio,
o dia escuro. Um círculo
na fronteira imensa,
a floresta vazia habitada.
Paraparás, Andirobas,
hostes de Tatajubas.
Saguis e Guaribas, Pintadas,
em silêncio
um Sauá me observa.
Há um som, range a rede.
Cantorias...Eu sofro
variando
da febre malsã da maleita!
Não era eu, era o Espírito
verde.
Vi Jurema me embalando.

Na Delicatessen da avenida Paulista
peço um Expresso com Creme
e
um pão de queijo,
presunçoso.
Pago e saio fumando.
É proibido fumar.
Agora está
tudo proibido e alargo
o passo e me apresso.
Eu sei,
tenho uma reunião marcada
há dias
com os chineses
da Texas Corporation Inc.
Provávelmente chegarei atrasado.

Nivelo o corpo, ajeito a gravata, vejo as horas
no Rolex Datejust Romanus Azul
que ganhei
por ser
o
Funcionário do Ano
em 2006,
e me acabo
num táxi
nervoso
buzinando
eu sei lá com quem.
Chove e o dia é escuro,
eu vejo
muitos guarda-chuvas negros
cruzando passarelas pichadas
de uma selva de concreto.
Pálidas pessoas e ratos e a atmosfera
é de guerra. Encerro o pleito.
Tanto faz se é Abril ou Maio,
Junho ou Julho,
tanto faz...
eu sonho Janeiros.


Adonis k.

Toda lembrança sem fundo musical



Ainda vejo o poente
em minha alma debruçada
na janela da casa ausente.
Eu era um ser pequeno,
um pirralho,
fragmento.

Grandes mistérios,
então,
cercavam-me a mente:
a vida das minhocas,
o pinto no ovo,
o arco-íris...
O que eram?

Nas tardes de chuva grossa
o aroma forte do café quente,
biscoitos de araruta,
portas cerradas,
velhas rezadeiras e brancas
velas acesas.
Os Santos vários,
os santos e a Nossa Senhora dos Aflitos.

Ainda me vejo debruçado
na janela
da casa
dos dias de meu pai
chegando.
O tinido arrepiante das esporas
soando
pelo longo corredor
eterno,
sempre às escuras.

Ainda me vejo,
nebulosamente,
mas há muito
que morri.
Perdi o senso.

Sou a sombra, agora,
o vulto.
Sou o que é distante.

Nem o sol, nem a lua,
nem o dia
ou a nascente,
nem a noite.
É o fantasma, agora.
O luto.
Deserto extenso
que sem pressa
estende um manto
por inteiro.



Adonis k.

Ferrocarril



Ao lado de casa,
mi casa pequena
(Mi casa está en Paranaque)
corre o lindo trem que vem das colinas...
O vermelho e alguns azuis,
desbotados, abusados
apitando sempre,
meu coração ferrocarril de aço
de algemas.

Ao lado de casa ciscam galinhas
douradas,
listradas,
de pescoço pelado.
Poedeiras.
Vivem ao lado
do ferrocarril prateado.
Meu mudo coração de vargem,
sem margem,
rasgado.

Ao lado de mi casa
usted,
ferrocarril que assopra
meus varais de camisas e calças
e lençois manchados.
Meu ferrocarril de ouro e mi casa perdida,
meu coração amargo e surdo.
Quintal sem muro.
Um negro violão de cordas frouxas,
um negro amigo sob a lâmpada acesa
do absurdo.

Adonis K.

Em vários pratos me alimento



Mas de vida entendo pouco
que de morte tenho tido
tantos
vários pratos numa noite.

Mas de vida pouco
nada entendo
que de noites me alimento
em vários pratos
de tormento.

Como
quando a luz difusa
em queda brusca
assim me arranca
e me arrebata
e me suspende.

Vocifero.

A íris em suspenso,
órbitas loucas.

Nada importa em sol ardente.
Arde apenas.
No deserto
é tudo prata
pois
a noite,
a esfera longa,
prateada
cobre o ventre
flamejante
dos planetas deste espaço
entre meu sono
e o ser ausente.

Adonis K.

Descendo a ladeira de bicicleta vermelha e chovia



Eu escrevia
algumas cartas
simples
que jamais enviaria.

Dentro de mim além
de estômago e rins
alguém mais.

Houve um tempo bravio
de estrelas demais
e cometas sem fim.

Eu escrevia e ria
o que muitos de nós
jamais entenderia.
Era certo o final do jamais.

Cantei a um mundo caduco
meus hinos de paz.
Ouviram? Foi mais um gemido
de menino,
um livro de bicicleta vermelha
ladeira inteira da vida abaixo
e chovia.

Adonis K.