Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

12 de jul de 2010

Retrato



A má sorte que persegue
o tão pouco que restou
da vida morna de nós quatro,
me abastece o fígado ruim.
Quarteto fantástico! Tempos idos...
Hoje a sacada com a samambaia
podre pendurada,
o gato preguiçoso e eu,
o mesmo da foto 3x4 que sorriu,
entre o pó.

Adonis K.

Laços



Embalou-nos a rede preguiçosa
no pomar
de nossa infância.
Hoje nos vemos por messenger,
antiquados videntes
do que está por vir.


Adonis K.

7 de jul de 2010

Manhã de Sol em Julho



Da porta da cozinha avisto a figueira
triste e desabitada. Hoje nem os pássaros...
Latem cães. Há presença humana
no portão.
Poucas flores sobre a terra ressequida.
O sol inclemente ora por nós,
fogoso astro.
Na saleta escura, um sofá
agrega todas as dores do mundo.
A velha tv em seu canto mudo
aguarda um milagre
silenciosamente.
Em breve o discreto almoço,
o trivial econômico,
o mastigar embaraçoso,
a companhia insustentável.
Quando retorno e saio do estado
abstrato,
contemplativo invoco os deuses da razão,
buscando paz.
É inútil.
Permanece no ar a presença indesejável do tédio.

Adonis k

6 de jul de 2010

Ser jamais Agora



O quanto me passaste naquele abraço,
eu soube.
Miríades transpassaram-me,
de estrelas mortas,
de planetas
penitentes dos que vagam por galáxias.
Ao soltar-te breve tontura arrefeceu-me a alma.
Um espírito já cambaleante,
tal qual o meu,
injusto,
de cor sanguínea transparente,
cobriu-me de plasma.
Mirei teu semblante ateu,
teus olhos profundos de traumas,
tua boca de carnes e luzes
e já não era eu
na penumbra
deste instante.
O quanto me passaste
eu sei agora
enquanto vago neste breu.
Foi uma troca de íons,
de mais de mil megawatts,
de um cesto de pedras
turmalinas.
Na lembrança obscurante
estão agora
as partes soltas
do mosaico,
nossas mãos truncadas,
nosso corpo aflito.
Apenas neste grito aos céus
romperemos ambos
as cadeias tortas de um umbigo ao meio.
E prosseguindo,
silenciosamente,
abateremos,
como se abate o condor,
a estrela-guia que nos força a marcha.
É o morrer para nascer de novo,
um acompanhamento doloroso,
fúnebre,
dilacerante,
intrínseco e picaresco.
São as justas medidas do partir
para poder chegar.
Do que vem, do que virá,
do que jamais esteve.
Do teu semblante neste abraço
resgatei o encanto,
difuso,
de te amar por dentro.
Eu fui uma baía no verão,
você uma brisa leve,
uma sereia,
um afago,
vil paixão.


Adonis k.

Circus



Entre nós algo aflito
prenuncia o despertar dos mágicos,
a aurora boreal do circo em que vivemos.
Somos tantos
aventureiros,
das cordas equilibristas,
mágicos saltimbancos,
o leão e o truão.
Por quase nada entre nós aflito
o cálice de vinho a convidar
sereno ao sono de março.
Chovia torrencialmente,
a lona molhada pesava em nossas almas inquietas.
Estávamos.
Trovejou, o espetáculo iluminado por mil velas!
Deu início afinal o apresentador ao tema principal: O do amor!
Atores perfilados, maquiados, textos, salvas
e nós ali sedentos de amor,
nós e todos os que vinham de fora.
Nascia o vento pelo palco esparramado.
Nascia e morria.
Cruzava as faces e os gestos tão ligeiros
indicando que o tempo,
terrível zombeteiro,
dera finalmente a partida.


Adonis K.

Pela manhã um grito


disponível


Colocamos o carro
na frente dos bois,
precipitados buscando amar,
queremos sempre mais
e rápidamente.
Um hiato nos carrega.
Carregamos um fardo, os ovários,
nossos pênis.
Entristecemos de fato
durante o café da manhã
sonhando depois
de acordados.
É mecãnico o passar suave
da margarina no pão.
A textura do pão...o suspiro!
Mecânicamente sorvemos o café.
A mordida lenta na maçã...
O levantar sem rumo
e o ato de abrir a porta,
a porta para o mundo.
Amenos giramos sobre os pés
balbuciando algo incompreensível.
Em instantes o livro aberto.
O livro pesado e aberto.
A vida a ronronar por completo.


Adonis k.

Maré



Apenas seis minutos.
É o tempo seguro de esquecer
o que mediou a lambida
da onda na pedra.
De costas reiniciamos.
De frente prá vida.


adonis K.

Busca livre




Tuas formas que não vi
por dentro,
tuas cores e teus cheiros
opacos,
amadeirados,
marcando meu tempo.
A certeza de navegar
em busca,
liberto,
sem medo me alerta.
Desperto avaliando
o quanto és,
conforme amanhece.
Crispam ondas,
lampejos pela proa,
sons,
cardumes de golfinhos
e sereias.
Vivas dançam,
criaturas efusivas
cantam
sobre nós.
Tuas formas que não vi
por dentro,
agora sei:
são formas de querer teu todo
como um ser de encanto.


Adonis k.

5 de jul de 2010

Essência



Adormeci tão jovem,
sonhei os sonhos inteiros.
Despertei já velho,
posterior a mim mesmo,
diz-me o espelho.


Adonis K.