Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

27 de mai de 2010

Dia de nós na Marginal



Paramos na avenida
por horas
na tarde modorrenta,
estáticos.
Algo nos impedia o avanço,
enjaulados que estávamos.
"- Não avancem. Sim, Mantenham a calma. Sim, relaxem!"
Nos olhávamos, fumando, ouvíamos de tudo
no rádio e nas pistas,
nos carros mortos desligados.
Vendedores-cantores, ambulantes e as águas minerais...
as sem gás.
Biscoitos de polvilho, laranjas descascadas,
doces, amargas, variadas.
Aleijões sorridentes, doentes terminais,
banguelas,
mãos estendidas, multidões...
Uma Índia de mãos nervosas,
de gritos, de ouvidos, de sopros,
de trocos, trocados, bolachas e discussões.
Frutas frescas, carregadores originais
de Nokias, de Sansungs, Motorolas,
de mentes abertas,
fechadas,
de baterias novas,
usadas.
Pentes coloridos, escovas dentais.
Crianças mendigam
pequenas moedas
e oprimem.
É confuso.
O trânsito paralisado agoniza,
agonizando a todos.
O sol impera.
Viaturas policiais gemem, animais, carroças!
Alguém aciona paranóico estridente buzina.
Afugenta borboletas,
pessoas reclamam,
batem , gospem no chão.
Intransponíveis muretas de proteção...
Invioláveis.
É o caos!
O caos urbano penetrando na alma de cada um,
no fórum líquido,
pegajoso,
infiltrando-se aos poucos e hoje.
É o extrato do doer,
do não sonhar,
do viver claudicante de todos nós.
A buzina é o inferno de cada um.
A buzina como um hino, proclamado.
O hino inglório e sofrível do universo concretado,
congestionado, torto, mumificado,
terminantemente perdido.
Passava das seis quando libertaram os veículos
e as pessoas
acionaram a ignição.
Foram-se pela tarde afora.
Engataram a primeira, acelerando.
Foram-se em marcha,
seguindo em fila.
(odiando-se vários e a todos odiando, odiando.)
Mas, porém, estão certas as pessoas:
os veículos precisam realmente movimentar-se
todos os dias,
assim como as crianças.


Adonis K.

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