Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

30 de nov de 2009

Na pele e a Morte.


O arrepio na pele que gela
o sangue
decerto altera o pulsar da mente.
Basta ver um guerreiro valente
que se depara
em breve instante
com a morte traiçoeira.
A traiçoeira morte não permite defesa,
é cruel, é fria, é coisa de gente.
Os homens que transitam por shoppings estão barbeados e não temem a morte.
As mulheres no fast-food conversam sobre os cabelos e não temem a morte.
O garoto do delivery, o cão-pastor da Polícia Militar, alguns psicopatas,
os transcendentais,
nenhum deles, que conheço ocasionalmente,
temem a morte.
Mausoléus silenciosos e muros petrificados escondem
as vidas que pulsam no além, dizem.
Que pulsam e não é no além-mar,
que esgotam todas as possibilidades do viver e estão reclusas.
Os insaciáveis e os antagônicos em debates intermináveis...
trapos puídos engavetados!
Silenciosos orgasmos de seres tiranos,
navegadores de oceanos que buscam
frenéticos
os seres das grutas escuras.
O arrepio na pele pode ser um aviso.
O arrepio é o toque do cetro do mago e do nada,
enquanto girando o momento esperado sangrar.


Adonis k.

18 de nov de 2009

Apocalipse



Eu fiz uma coisa
poética
eu nem estava nem aí eu nem vi
o mundo acabar em chamas.
O que vi foi uma dúzia de bananas.

Adonis K.

Street Bar



Observei o absinto enquanto pensava fumando.
O bar estava as escuras e ventava lá fora,
sibilava, era um vento potente.
Os vidros embaçados e a noite fria me aquietaram.
Eu morria aos poucos porque vivia estranhamente.
Estávamos sós, eu e ele, o garçon.
Ele fumava tristonho,
eu fumava absorto.
Pedi mais luz,
mas estavam fechando e as cortinas foram cerradas.
Eram singelas cortinas cor de avelã,
toscas e rotas entre certas outras, vermelhas.
Também encerrei meu estágio.
Levantei-me sem pressa,
eu não havia estado lá completamente,
na verdade.
Foram alguns passos e abri a porta.
Enregelei-me de súbito, voltei-me.
Abri os olhos e fechei o agasalho,
comprimi contra o peito o enorme casaco
procurando proteger um coração
que nem batia.
Eu sabia que havia cachorros lá fora,
o perigo eminente da borrasca.
O relógio pintado na parede e um táxi comum.
Poucos sabiam que eu fora clarividente.
Do passado, apenas resquícios evidentes.
Folclores, mentiras, coisas sussurradas.
Meti-me noite adentro resoluto.
Ouvi um canto,
era eu e um cigarro,
nada mais!


Adonis K.

13 de nov de 2009

"O"




Eu venho de uma era de guerras
que dilacera os corpos e obstrui as almas,
que corrói os olhos e corrompe os homens.
Eu venho de onde o nada inspira, expira e se contrai.
De onde explodem cabeças e os gritos calam fundo
e ferem como fogo e morrem como pássaros.
Eu venho da baioneta do marqueteiro,
do pregador de ilusões, do curandeiro.

Sou a ferida purulenta,
sou o fel, a fenda, a ruptura.
Exponho as entranhas da Terra,
missionário dos desejos saciados,
trago o êxtase,
e impávido,
a injustiça e o engodo de duzentos tribunais.

Aprisiono eternamente, ferozmente:
Ouço lamentos horríveis...
Trago amordaçado um cão feroz!
Haverá porventura um deus aqui, entre nós?
Clamo aos órfãos que jamais conheci,
e roto, demente, alucinado,
na noite inclemente serei sacrificado por ti.
A música virá, um canto virá, um poema...
e o tédio absoluto será a minha herança.

Que habitem o covil dos ladrões
os pobres de espírito.
Com toda embriaguez adulterem.
Que bebam o sangue dos imolados.
Que caiam os tronos, rompam-se os diques,
que ruam catedrais!
Oh! Que amargo sorriso resplandece,
que couraça justa me enrijece,
que sujeito estranho sou eu,
“globe-trotter” de uma empírica geração.

Tenho sede e não encontro o que beber,
nem há sombra, nem abrigo, nem morrer.
Tenho ainda tudo em mim amotinado...
Louco incólume da sorte dos naufrágios,
sobrevivo emoldurado em negro luto,
bastardo ereto desfilando resoluto
por velhas casas desfibradas em ruínas.
Piso lerdo um chão rangente, eu cerro portas
entre estrelas que abandono e já caído,
passo a olhar, de mãos atadas, sem futuro,
o quanto andei por corredores obscuros.

Quanto ao vento glacial que ainda pressinto,
quanto aquilo que por cisma ainda respira,
peço ao tempo, irmão eterno: Calcifica!

Adonis k.