Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

10 de jun de 2009

Sem Saber.




Venho a ti por um encanto,
prá recuperar um pranto
que estou certo
relutei em derramar.
Por acaso, por vertentes
tão sumidas, tão vazias,
por segundos teu semblante
é o que ameniza,
dissecado,
este teu ser.
Sangue rubro na bacia
de alumínio a escorrer...
Escorrendo as horas mortas,
penetrantes,
parte orgânica, perene,
deste amar desesperado
que de pleno, elevado,
é outro ter
conforme sendo,
translúcido,
por nós dois cristalizado.



Adonis k.

Ignora



Ignora, irmão
esta dor que te povoa a alma
e toda hora e infame
te devora o fígado
e a cor da cara.
Cutuca e afugenta,
serpente que o bote arma,
fria e indolente
como se semente
de uma dor sem calma.
Ignora e solta
em o triste momento
a tua rasa lágrima.
Ardentemente ouse
dar um basta agora
a uma ferida estranha
que corrói sem senha
teu semblante pálido.
Corra
pelas alamedas
sem ter mêdo explícito
de que o perigo
mora em cada esquina.
Ignora a morte que ela te apavora
sem ter existido.


Adonis K.

O Corredor e a execução



Passos no escuro da alma
ressoam por pisos de jacarandá.
O intenso cheiro de cêra de Carnaúba
penetra pelas narinas.
Transpira o esquálido senhor.
Soa o meio-dia,
é chegada a hora.

O ventilador de teto,
o gato que mia,
o copo de limonada e os cubos de gelo
a tilintar.
A agonia de ver a hora.
O fim da espera.

Sons que não consegue ouvir,
mas que vem de portas de metal.
Sons irreais que brotam de dentro de si,
sons infernais.
Peremptóriamente confuso e preso sobre si
desaba o desconhecido colosso,
o obscuro.
Levanta-se então com os olhos vendados
percebendo as garras do infinito corredor.

Não sairá dali jamais,
sabe disso.
Nem para algum lugar.


Adonis K.

9 de jun de 2009

Ícaro


Repousa, meu bem, neste berço explêndido.
Antegoza o porvir.
"Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora",
e não vai embora, não há avião agora, para partir!
As horas poderiam ser mais longas, e realmente o são,
quando se espera insone no enorme saguão.
O tempo inviabiliza o vôo,
Os operadores afetam o pouso,
a decolagem é pura loucura,
engrenagens travestidas em touros bravos.
Pistas são arenas.
(pequenas).
Sangue na areia...

Adonis K.

8 de jun de 2009

Queda Livre


A quarta hora,
a que sinalizou
que teu mundo ruiu
foi como uma pomba voando
amedrontada.
Sem doses homeopáticas virou do avesso
rezando um terço,
desmantelando-se em crise.
Foi a queda,
o fundo,
o fim de um precipício.
Enlouqueceu e foi definitivo desde o começo.
Entre tantas outras horas aquela foi o agora,
o desde sempre,
o longo instante,
o que presente insinuou-se para todos
sem rodeios.
A quarta hora acalentou um sonho;
o de jamais permanecer estático,
insalubre,
amorfo,
mas morto estranho ser em revoadas tantas,
como se vivo estivesse
e alegre fosse.


Adonis K.

7 de jun de 2009

Improviso



Por que fazer de agora,
meu bem,
uma hora que demora?
Melhor esquecer.
Me esquece e me come e devora.

Ninguém ouviu falar nunca
do número do meu celular,
nem você.
Mas a conta vem.

Ouve o som que nos toca
agora,
é um som prá dançar
coladinho.
Eu e você e todos que nos viram.

Nem mesmo os tentáculos do polvo
do mar
podem conosco,
nesta hora assim,
agarradinhos.

Vem meu amor e não demora,
é esta hora demais que perdura
no corpo e que a gente logo esquece.
A gente esquece porque não quer mais.

Existe um momento e nós estamos nele.
Vem agora e deixa prá lá
tudo aquilo que invade e piora.
O que nos piora não virá jamais,
já que coisas que a gente detona, detona.

Nem me liga nem ligo e depois
a gente
como sendo nós dois,
nem seremos o nós e a laçada.
Não perdura não dura a embolada,
nem a vida, a megera,
já que um e mais um é dois nada.


Adonis K.

Gladia Dores




A minha poesia é taciturna.
A minha poesia não salva palavras,
guilhotina e engole
aqueles que sofrem as dores do dia,
e nas noites frias
incorporam o silêncio.

Os tais das feridas purulentas
que choram o sangue dos justos.
Os que clamam
aos milagres lentos da rotina,
Os da luta eterna
contra o caos dilacerante.

Os que lamentam,
que habitam juntos
os bosques lúgubres
das almas insanas.

Os tais,
os poucos que nos ficam,
os muitos que nos vão,
tão sós a dois,
a três,
dissolvendo-se instantâneos
nas vagas das estradas
sem pavimento.

Os que dissecam-se,
navegadores destemidos de mares revoltos,
e afogam-se decididos.
Os tais, os loucos
de cruel felicidade e
indescritíveis prazeres,
os sãos,
os que sonham,
os que amam os cães de olhos azuis.
Os lentos de raciocínio,
os parvos,
os tantos que incorporam as águas aflitas da fome
estando indiferentes,
sempre,
entre nós.

Adonis K.

Hoje, não!



A longa pista noturna
molhada de óleo de água de mim,
a longa jornada com o veio oco de chão,
de surtos e temas
que nunca mais vou abraçar.
Lágrimas quentes.
Que será? Meu ser aflito para sempre.
Hoje, não!
Houve um profundo suspiro rodando
na longa pista noturna por mim,
eu esqueci teu cabelo eu esqueci teu pêlo,
tua cor,
eu nunca estive a fim desde que saí
rodando
pela longa pista noturna.


Adonis K.

Caçada



Quando anjos caídos atravessaramo imenso páteo deserto,

a pé,

sem o bater de asas,

sem o flutuar marmóreo,

pareceram-se por instantes comigo,

pobre aceno,

tiradas as vestes.

Eu usava cabelos encaracolados

e tinha tristes olhos azuis cerúleos.


Observei de imediato

através da transparência de suas vestes

uma nudez humana.

Senti o exalar de seus cheiros,

cheiro de alecrim,

e permaneci escondido por detrás dos escombros,

em completa sinestesia.

Julgado,

errôneamente culpado,

Perseguiam-me por algo

onde nem mesmo eu,

proscrito,

poderia buscar-me.

Não me sentia pronto.

No entanto

deveria partir.

Não eram meus planos.

Nos planoseu iria apenas como vim,

sem lutar não poderia.

Ficar seria como sempre,

Partir seria sómente

um andar sem fim.


Adonis K.

Fuga Ingênua



Linda e áspera
criatura em botão,
feroz
menina
brotando mulher do chão.
Entre serras e cordões umbilicais,
cortes congênitos
a força abertos
pela têmpera
ora precisa
dos punhais.

Grite agora os nove fora que calou
no ventre seco que esta vida amarrotou.
Por quem veio e foi-se embora
honra e glória,
frio e parvo
no tropeço desta hora.
Cai o pano de um palco iluminado,
e o veneno
deste pão sacramentado que te dei
se espalhe e vingue
a morte
destes todos que provaram tudo aquilo
que provei.

Fumegante o tempo atroz
delate a todos
os que a fome
por tormento
consumiu.

Nada salve tua seiva nem beleza,
tudo encubra, nada instrua,
nem perdoe ou traga a mesa.
Nos limites saberás!

Venha o dia, venha o dia e cubra a noite.
Faça a força e desça breve tal um canto,
com teu manto glorifique tua alma
minha pequena,
nestas brumas que transformo
como trigo em poema.


Adonis K.

Meu Amor Mar É



Tanta força tinha
este teu olhar
quando me penetrou,
que rompi comigo
para estar contigo
em uma estranha esfera.

Cara a cara agora
observei no instante
que o momento errante
estava enfim ausente,
e que no entanto sei
de que te amar preciso
o quanto sei que sabes
me mentir.

Ora lamento em pranto
o desengano lento
que adiciono em pleno
leito meu de enfermo.
Sei agora o tanto
que carrego
o fardo que criei por ser
inteiro assim por ti.

teu fascínio breve,
teu estranho canto,
teu pescoço e lenços
me sobrevoando....
teus cabelos prontos,
teus suaves pés,
tua voz tão rouca...
Meu amor sumindo,
vindo, indo e vindo
tal qual a maré.


Adonis k.

Meus Dias



A longevidade dos meus dias
que a esplanada de minh'alma
toda a alegria
surrupia,
Faz com que meu riso,
antes farto e guia,
seja hoje pedra
oculta,
rara e preciosa,
tanto quanto foi
o amor que tive,
pleno,
em triste e eterno instante
de feliz melancolia.



Adonis k.

Temendo Ter



Coração de vento e de metal,
palavras soltas,
doces risos gargalhadas ás vezes
presas,
ás vezes soltas
que vem
de você e eu ouço
tudo em sincronia.
Em sintonia
com a batida do piano,
com o reflexo do teu largo sorriso deslumbrante,
o sorriso que vem dos teus olhos de jaboticaba
e de teus cabelos de carvão,
de égua,
de enchente,
dos teus dentes de tubarão.

Você me mata mas eu sobrevivo
teso,
eu sou duro de roer.
Sou aquele que você quiz
querer
mas teme
ter,
um tigre ferido lambendo
a ferida,
um perigo.
Eu devoro os outros animais.

A noite
que você não quer ver,
posso ser eu,
o que você evita,
o frio insípido,
o crepúsculo,
o negrume,
o extremo da dor e do êxtase,
o abraço,
seu corruptor.

Eu sangro pouco e ouço e faço
muito de conta,
sobrevivo com palavra soltas
como pipas
em qualquer lugar,
mas agora me despi de todas
as armaduras.
Agora estou crú,
descalço,
incólume
emagreci
meus traços,
afrouxei os laços,
por te querer de fato
arrebentei.


Adonis k.

Safou-se



A fumaça,
a que desceu no acostamento da estrada paralela
encobrindo sonhos,
tremeluzente,
entre a poluente argila
marcou a calma dos pequenos,
dos vícios das cataratas.

A colina que serpenteia mata espessa,
serpenteando
a colina dos meus medos e receios,
dos crimes hediondos,
arruinou-se.
A densa neblina,
a que ficou,
Permaneceu, confesso.
Meus passos lentos...

As troças banais, as viscerais.
Os boçais contos e trajetos,
o incômodo de estar por perto,
Tudo se contrai.
O retiro intensamente despreendido de valores.
O grito.
O gozo.
A gruta.
O coito.

A mesa posta e os valores e tudo
o mais,
trocados.
Os famintos enlouquecidos,
ensandecidos
por pão, por sexo, por letras.
O passeio de quem nunca pensou em ir tão longe
e foi.

O repelente ser importunando faceiro
a gargalhar
o que caminha por vales sem pressa,
absorto,
aquele que traz na testa
e torto
o pó da viagem,
incompleto,
insolvível,
por pouco,
safou-se.



Adonis k.

Abraço d'água.



Foge tristeza
de mim
agora
e se perca.
Estranha-me e
deixa-me viver um tempo curto,
por querer.
Deixa-me.
Foge de mim
e se trame
por veredas invencíveis,
por esferas catatônicas,
simbólicas correntes de lama.
Procure por mim e encontre
nada além dos meus dedos encarquilhados,
além do que foi feito
de mim,
mas nada de mim.
Assim como as pontes
e estradas,
voemos portando o segredo
das fontes,
murmurado por rochas
lambidas de águas.


Adonis k

Ei!



E aí, amigo
e aí? my brother...aquele abraço
e me liga não esquece de vir pro jantar
qualquer dia
desses.
Ei! ei!, me diga
qual foi o resultado do futebol.
Se tem visto o Nestor.
Se ainda bebe
cachaça.
Se aquele seu cachorro poodle branco ainda vive.
(O chato de galochas do poodle branco que você tanto amava
com seus latidos estridentes e seu bafo quente de ração de peixe)

Eu ainda moro na Comendador.
Terceiro andar, fundos,
de frente para o muro da parede
do prédio vizinho.
Casei,
separei,
quase me matei
mas ainda ando mais ou menos
prá frente e prá trás.
Vendi o carro,
assisto muita TV,
fumo,
quebro o pau com o povo e não me desespero.
Pensam que sou louco.
(Mas você sabe que eu não sou louco,
pelo menos não tanto quanto você é. Louco!)

Ligo um som e vou rodando,
pedalo uma bicicleta cor de laranja
já velha e enferrujada mas muito compenetrada.
Vou pela praça.
Uso um shorts colado na alma cor de vinho,
um gorro de palhaço e um óculos made in China.
Chinelo e meia.
Eu não pinto os bigodes porque acho ridículo.


Adonis K.