Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

18 de fev de 2009

As Mãos

As mãos benditas
que vieram até meus olhos
e correram meus lábios
como fio de navalha,
arrepiando-me cabelos,
tornando-me sangue ardente,
ar rarefeito,
criando na noite pura
quente cena de beleza nua,
o suor, as promessas e juras,
são as tuas.

As mãos que te deixaram nu,
Que te moldaram em brasa
Revelando caminhos,
Rasgando palavras,
Que roucas e loucas
Armaram guerrilhas
Pedindo teu beijo,
Eram minhas.

ADORA

*"Adora" é pseudônimo de Adonis e Rachel, e este poema é nosso primeiro trabalho em conjunto.

17 de fev de 2009

Beijo Molhado



Entretanto lá estava a mulher iluminada
pelas lâmpadas dos postes do motel
e os neons refletidos em seus olhos
indicavam cachorro-quente e coca-cola,
naquela hora silenciosa de buzinas.

Fomos.

Retorno

Encontrei-me vago folheando
páginas emboloradas do livro da vida
sem dizer nada e absorto e despertei
inesperadamente.
Fechei o livro e senti muito frio,
um frio de saudade e de espanto
por estar ali sózinho, em meio a sala.
Acendi a luz do abajour e liguei o ventilador
sem abrir as janelas e as portas permaneceram
fechadas. Eu estava trancafiado até então.
Uma camisa de força, uma algema, uma coleira.
Que triste figura, pensei.
Em chutar o balde, pensei.
Em chutar o pau da barraca.
Em diluir-me e concentrar-me em outra coisa.
Em alguma coisa abstrata que não fosse você.
Em algo absurdo.
Mas havia tanta água prá beber ainda,
tantas léguas, tantas curvas a percorrer nesta estrada...
Amanheceu e saí para tomar um café.
Chovia.
Uma chuva fina e fria e dolorosamente triste.
Mas pedalei a bicicleta e entrei em todas as poças d'água
do caminho
e pisei no barro e caí no chão molhado e rolei na grama.
Eu estava livre e desesperado.
Dilacerado.
Eu precisava matar a minha fome e respirar.
Estava sufocado e retornei andando pela alameda,
contando árvores e procurando ninhos de João de Barro.
Eu voltei prá mim num dia assim,
desse jeito,
repentinamente e não mais sumi.
Agora estou aqui.

Carta sua



A loba da banca de revistas
embrulhou dez balas de hortelã
e me alcançou o troco
e uma caixa de fósforos.
Acendi um cigarro e ajeitei o jornal por debaixo do braço.
Dei uma boa tragada,
olhei novamente para ela
que sorria estúpidamente
e parti.
Ia apressado.
Uma espécie de fobia.
Muitos guarda-chuvas e sombrinhas
e gente feia encapada com um vestuário plástico
esbarrando em mim, pisoteando copos descartáveis,
panfletos, flores murchas, cata-ventos e objetos em geral.
Estava tudo esparramado pelo chão.
Na escadaria da igreja um senhor troncudo tocava bandoneón.
Talvez fosse argentino, e cego.
Talvez fosse mudo.
Não me detive mas comprei um saco de pipocas.
Ao chegar
aguardei o carcomido e antiquado elevador.
Subi e preparei um chá de alecrim.
Tomei um banho quente.
Deitei-me na varanda e devorei
novamente a insônia
antes que ela implodisse comigo.
O telefone tocou várias vezes
mas não atendi.
Havia realmente uma dúvida que insistia
em permanecer distante e imprecisa sempre,
porém,
não houve
desespero desta vez.
Houve talvez uma vontade tardia,
um grito surdo,
um vulto,
um cheiro de pastel,
uma fatia de bolo de chocolate e uma carta sua por debaixo da porta.

Adonis k.

2 de fev de 2009

Pressinto


Vence o 60º CP da PP o poema

PRESSINTO

Vou ter um filho que não é meu.
Vou tê-lo e ele a mim terá porque
nós somos quem deveríamos ser
antes que os deuses estabelecessem regras.

Ele é dele.
Eu deito os olhos nele.
Sou ele assim.
Sou e vou ao seu encontro.

Querido amigo para sempre para sempre.
Aguarde meus braços.
Os seus laços aguardarei.
Os abraços.

Eu guardo tudo prá você, meu bebê.
(as cordas do violão)

Presença,vida eterna amém.
Amém!
Sim, ouvi isso dentro de mim.
Um anjo anão batendo asas
foi-se pela mata.

Filho que amo
andando como hoje por estradas sem você assim.
Ando assim,
meio nú.

Quem vê?
Se vê...Crê?
Mas há três coisas: quatro coisas,
cinco coisas,
sei lá que seis ou nove coisas,
dez,onze talvez.
Há? Há sim.
Um dia.
Há neve e o sol que cintila e chuvas e nuvens nos céus.
Há...são tantos!
Que bom que há estrelas cintilantes nessas noites de outono.
Que bom ser fruto do amor entre humanos.

Telas, risos risos,
afagos,rios,pontes,cascatas!
Fogos e rios.Risos.
Sonhos seus,os meus,os nossos seus novamente.
Nossos.
Contos de fadas vem em som de cítaras.
Cítaras, Budas,Blues.Dois, três...canções de araras,tão raras, Baião de Dois.

Sonhos há,
há cordas vocais.
Vãos entre portas.
Murais.
Vocês agora assim desse jeito querendo viver
um tempo quase mudo.
Surdo é um instrumento...Vocês, o tempo.
Não por pouco, contudo

“- táxi!”...táxis!

Eu de soco e de parto nasci prá te receber.
Bebendo licores, meu pai, entradas de circo,
Fumando charutos!
Ficamos assim,ansiosos eu e ela,
ela e eu
como quem recebe de noite a velha luz amarela.
Quimera e canção.

Venha, então meu bebê de outros tempos.
Venha pela passagem para esta vida sem igual.
Esta cartinha que escrevo
nem cartilha é, meu bebê!
Venha assim mesmo.

Seu pai, seu pai
Sou eu,seu filho,
seu pai sou eu.

Antes conhecê-la.


Eu ontem estive disperso
por tantos cantos do universo
de meus pequenos mosaicos internos
que revivi perplexo um quadro plurifacetado pluricândido plurinada estático.

Uma urina espessa vertia e o torpor suave da cãibra penetrava.
Uma relva macia e um deserto de pedras sonhava sempre.
Ela nada.
Eu nado, tu nadas.

Cócegas.Risos.Palavras.
Um pão e um bife prá matar a fome
de amor é nada.
Um pão é de matar a dentada.
Dois pães com bolacha.
Quatro cantos.
Um vício beijando tua boca adornada.
Risível cada regra quebrada.