Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

13 de nov de 2009

"O"




Eu venho de uma era de guerras
que dilacera os corpos e obstrui as almas,
que corrói os olhos e corrompe os homens.
Eu venho de onde o nada inspira, expira e se contrai.
De onde explodem cabeças e os gritos calam fundo
e ferem como fogo e morrem como pássaros.
Eu venho da baioneta do marqueteiro,
do pregador de ilusões, do curandeiro.

Sou a ferida purulenta,
sou o fel, a fenda, a ruptura.
Exponho as entranhas da Terra,
missionário dos desejos saciados,
trago o êxtase,
e impávido,
a injustiça e o engodo de duzentos tribunais.

Aprisiono eternamente, ferozmente:
Ouço lamentos horríveis...
Trago amordaçado um cão feroz!
Haverá porventura um deus aqui, entre nós?
Clamo aos órfãos que jamais conheci,
e roto, demente, alucinado,
na noite inclemente serei sacrificado por ti.
A música virá, um canto virá, um poema...
e o tédio absoluto será a minha herança.

Que habitem o covil dos ladrões
os pobres de espírito.
Com toda embriaguez adulterem.
Que bebam o sangue dos imolados.
Que caiam os tronos, rompam-se os diques,
que ruam catedrais!
Oh! Que amargo sorriso resplandece,
que couraça justa me enrijece,
que sujeito estranho sou eu,
“globe-trotter” de uma empírica geração.

Tenho sede e não encontro o que beber,
nem há sombra, nem abrigo, nem morrer.
Tenho ainda tudo em mim amotinado...
Louco incólume da sorte dos naufrágios,
sobrevivo emoldurado em negro luto,
bastardo ereto desfilando resoluto
por velhas casas desfibradas em ruínas.
Piso lerdo um chão rangente, eu cerro portas
entre estrelas que abandono e já caído,
passo a olhar, de mãos atadas, sem futuro,
o quanto andei por corredores obscuros.

Quanto ao vento glacial que ainda pressinto,
quanto aquilo que por cisma ainda respira,
peço ao tempo, irmão eterno: Calcifica!

Adonis k.

1 Comments:

Blogger luisa said...

Esse poema foi feito pra mim?

1:59 AM  

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