Poemas Finitos

Diga ao povo que fico! Ou melhor, deixe que eu mesmo digo. Sem penas e sem pedras, semi-nú, sem grandes ou pequenos, nem de leve abstêmio, levemente suburbano, metropolitano, sem face, sem máscaras, estou em qualquer passado e nos cotidianos. Cai o pano!

20 de nov de 2014

Miojo Forever II



Separados estamos, por um triz.
Atados para sempre,
como se diz.
Atentos à detalhes,
elucubrando, sem juiz,
conosco a luz de um abajur.

Réus e algozes, enfim,
fumando hollywood sem parar.
Buzinas soam, soam todos os alarmes
na garagem do subsolo.
O elevador em manutenção...
Em manutenção todos nós.

Nivelando, arquitetando,
lendo alguém, vendo além, comendo algo.
Transpiro ácido e incenso de patchouli.

Poucos beijos na tela,
nenhum queijo
na geladeira.
Besteira,
um repolho, vagem, manteiga.
O pão acabou.
Fui eu que não quis
saber
quem sou.

Há miojo diante de mim.
Meus olhos opacos.
Há crateras por todos os lados,
crateras de um vulcão.
Foi-se o tempo,
única paixão.
Deu-se o tempo,
enterrado .

Há miojo e um carro sem bateria,
uma conta de luz impagável.
O elevador,
o síndico,
as janelas repletas de fósseis
e plantas carnívoras.
Nossas consequências...
Nós sós e fartos e canalizados por todos os lados.

Adonis k

27 de ago de 2014

Jardim



Ali está o homem
solitariamente sentado
em seu jardim.
Ali, sentada com ele,
toda a humanidade o surpreende.
Chove.
A chuva é fina, formigas buscam abrigo.
Levanta-se o homem,
a humanidade com ele,
caminha.
O homem sente
a chuva fina,
faz frio.
Mas não busca o guarda-chuva,
busca jardins.

Adonis K.

29 de mai de 2014

16





Dezesseis anos se passaram
nem flagelo, nem tormento,
tampouco alegria. Chuva morna,
diâmetro turvo...
Além, doces promessas,
nuvens faceiras,
comadres de Deus,
amigas dos anjos.
Cá comigo,
proseando botões,
várias cores,
formatos diversos,
presos,
mudos todos.
Por isso alcei
voo
a partir do penhasco:
sobreviver ao glacial das almas pequenas!
A água salobra escorria,
percebi,
era clara cachoeira,
represada.
Dezesseis anos passam depressa,
dizem,
quase voam.
Voei também, quase, comiserado.
Condição humana. Voei para me ver,
do outro lado,
o lado cinza, o pardo,
o côncavo aflito
em convexo revertido.

Adonis K.

19 de abr de 2014

Alegria



Fumega no peito
o ardor fresco
do amor chegado
de novo.
Vibra o leito
em que o sonho bem sonhado
entrelaçou os corpos,
mistura de suor e magia,
alegria
já sem jeito,
preguiça de ir embora.


Adonis K.

A Casa e a casa de Benta



Na casa repintada
tudo estava em seu lugar,
como havia sido.
O rádio e a gaiola,
as sombras assaltando os vivos,
a bacia de ágata.
Na casa respiravam livros antigos,
velhos livros pesados,
nunca lidos.
Espelhos emoldurados refletindo almas
assombravam gatos,
gatos pachorrentos,
pardos e tigrados.
Os doces de goiaba,
os doces na janela,
os doces vendidos a retalho,
o cheiro penetrante dos doces feitos na véspera.
As folhas da janela sempre aberta,
oferecendo silêncios
e o arrastar lento de chinelas,
o ruído metálico das moedas miúdas
dançando no pote,
a tosse rouca de sinhá Benta,
a loucura inventada de Sinhá Benta,
suas rezas noturnas, as abluções, o purgatório.
Demônios andavam por lá, ela dizia.
Circulavam, dizia-se, por noites afora,
sem descanso, por sua cabeça.
Na casa rescendendo a tinta fresca
o odor dos lírios e de outras flores,
a pintura que desfazia os outros
detalhes...os mínimos
e o mais importante: nada havia lá fora!

Adonis k.

28 de fev de 2014

Morte Inteira



Logo vi que a morte inteira estava ali,
com o velho amigo a meu lado.
Íamos morrer.
Meu último soluço foi em vão.
Ele mergulhou.
Eu fiquei aqui.


Adonis k

Cantando
























Flagrei-me a cantar sozinho,
bem baixinho,
uma canção
inventada na hora.
Eu a tinha estampada
na alma, na alma encontrada
nos ermos
da encruzilhada.

Adonis K.

9 de fev de 2014

Leseira




O sinal prá eu estar perto
é um elemento longe do fim
e nem mesmo viajando 

comendo poeira.

Nem sinto o que conheço há décadas
o gosto da imagem 
dos sabores que eu precisava

comendo ladeira.

Que esquisito este pacote,
parece alguma coisa
e nem mesmo viajando

comendo madeira.

Você está certa
exatamente olha o arco
de outro departamento.

comendo besteira.

Eu só preciso saber se você chamou o técnico.


Adonis k.

Meu poema












Meu calado poema,
meu magro poema triste,
findo poema oblíquo
,
enegrecido.
Meu louco poema conciso,
poema das poucas portas,
das ruelas, das leves horas
fugidias.
Debruçado nas solitárias janelas
de cinzas molduras tortas,
respira.

Adonis k.



18 de ago de 2012

Montanha e Vale



Fomos unos rodopiando
pelas curvas,
tropeçando risadas.
Não havia sinônimos para esclarecer
nossos caminhos.
Uma fé louca na chuva
que clareava nossas almas
e o sol que esfriava toda a raiva
do mundo inerte.
Um mundo inerte que girava,
que fazia qualquer sorriso
congelar.
Havia um tempo no passado
e um tempo obscuro que plainava
sobre as folhas das árvores menores.
Nós íamos revelando coisas,
éramos circenses, tristes palhaços
em trapos. Íamos assim, em carrosséis.
Crianças vinham, crianças iam,
vinham pais, prefeitos, sacerdotes
em trajes pretos.
Havia bandas de música e algodão doce.
Havia pipoca e suco de maracujá.
Havia tanta cor...!
Mas nosso toldo derreteu diante do mundo.
Derretemo-nos,
naufragamos ambos, arriamos velas. Sentamo-nos
diante de uma realidade austera, fomos engolidos.
Engolidos na primavera.
Raspei o bigode, a caixa de maquiagem foi roubada.
Meus colares, os brincos, as coisas...
Minhas roupas, doei. As suas, nem sei.
Pelamo-nos
e
certa vez,
já moribundos e maltrapilhos,
no palco improvisado, de onde o nome é nada
declarei o poema supremo, em voz alta:
" É tudo em grego,
não fosse vergonha ignorar latim.
É grego prá tudo: ódio, alegrias, problemas,
os sentimentos mais íntimos. E ainda há mais:
Transam em grego...", do Juvenal.
Ninguém aplaudiu, o povo não entendeu.
Nem eu mesmo entendia.
Jogaram-me ovos, tomates, cuspiram em minha cara.
Arrancaram-me a peruca.
Desci do mundo e pedi prá deitar na sombra do muro.
Havia um muro.
Eu me criei sozinho e condenado me livrei.
Me livrei e me livrei com cada pouco que fiz para fugir
das grades da prisão. Via os homens aprisionados e eu,
um liberto sem contas, sem colares, sem documentos,
via os homens.
Mesmo assim tornei-me o toldo derretido
diante de meus olhos, no passado.
Um toldo avermelhado.
De bigodes raspados e já há anos sem a sua companhia
encontrei a base de uma montanha de pedra escura.
Foi durante uma estranha caminhada.
Era uma linda montanha. Se escalei tudo nem sei.
Escalei.
Encontro-me aqui, agora, lá, observando o vale.
Se valeu, não sei, ninguém sabe, nem eu rei !


Adonis K.

10 de ago de 2012

O Vaso




O furto das almas nem foi assim
tão bom
quanto o furto do chocolate
de avelã,
houve furtos de amores,
licores,
de amoras, de flores,
tudo muito calmamente e hoje.

O furto das claras de ovos,
das couves, dos rostos,
das lágrimas de ontem,
dos risos sobre as pontes,
das fontes.

Sem doações, levaram.
Encheram cabaças e potes,
maletas, baús, carretas.
Alguém pulava de alegria,
zombava e ria.
Tudo muito calmamente e hoje.

Misturei-me a procissão
de ciganos,
todos tão coloridos,
dizendo a mim mesmo "bom-dia!"...
já que eu mesmo levava,
sentindo nenhum perigo,
sem ter onde por sentido,
um vaso com dois gemidos.

Adonis K.

Quando a Noite Vem




Quando o silêncio desceu
sobre as pirâmides do Egito,
desliguei o dvd.
O filme estava chato.
A pipoca acabou,
a Coca esquentou,
perdeu o gás.
Um frio lancinante...eu de touca de lã.
Com dois pés gelados pensei no que fazer.
Abrir as janelas, jamais.
O aquecedor pifado inútil sem serventia morto
estava ao meu lado.
Telefone sem bateria.
Os neons impossíveis piscavam um Café Madrugada,
Dancing,
a Casa perdida no nada da esquina medonha,
oásis
onde pernoita um vazio menor, talvez.
Mas, e a coragem?
Parcas notas amarfalhadas
sujas de óleo de corrente de bicicleta.
Notas insignificantes
reduzidas a dois pães
e um conhaque.
Notas de merenda de pobre, injustas.
Ruminando em meus bolsos largos, as duas.
Levantei-me.
Fui até a pia do banheiro tropeçando nos chinelos.
Lavei o rosto sem me olhar no espelho.
Urinei.
Voltei para a cama, me cobri, religuei o dvd.
Um faraó mandava executar centenas de escravos.
Eram prisioneiros de guerra, pelo que entendi.
Gente capturada pelos generais daquele faraó de nome esquisito.
Correu muito sangue, eu vi, apesar do filme ser em preto e branco.
O faraó tinha uma filha. Filha única, muito bonita.
Garota de muitas jóias.
Um dos escravos escapou da morte,
porque era bonito,
e raptou a filha do faraó.
Era o prisioneiro mais bonito dentre todos os outros.
Muito valente, também.
Muita coincidência,  pensei!
O bonito e a bonita foram felizes para sempre.
O faraó morreu.
As pirâmides desabaram, mas só uma parte.
Os neons vermelhos do Café Madrugada
não me deixam dormir.
Fico lembrando daquela gente aprisionada,
sendo executada. A rádio executa Michel Teló.
O faraó morreu!
O ex-prisioneiro está no interior de uma bela tenda
com a ex-princesa egípcia.
Vivem no deserto, um lindo deserto.
Eu tento dormir mas não consigo.
Também vivo num deserto.
Eu tento dormir todas as noites,
mesmo sem filmes,
mas não consigo, não consigo!



Adonis K.

Demora




Se arrancares de ti o principal,
que é a fibra do teu coração,
viverás de que, depois?
De autocomiseração.

Amputados seres...!
Flores de lama,
tão justas medidas,
Alva cama, alva mama,
alva e doce criatura!
Pentelhos,
Derramas...!

Podem repicar os sinos explodindo os muros.
Podem agonizar por fora e agonizar por dentro.
Quem está por dentro sabe muito bem
o quanto amar demora.
Injetas...! No entanto, esqueces a hora!


Adonis K

Como Lazanha




Prá onde você se foi
sómente a noite
pode responder,
mas ela está muda
ou então se cala.
A noite é sua cúmplice e não o dia,
que é um cego andarilho em busca de estrelas,
um velho barbado sorridente e moribundo.

Eu sou as pedras do caminho,
sementes de dor,
um borralho sujeito
complicado,
que admira
sem virar fã,
E na praça grita
incríveis
ofertas,
diversas,
promoções.
Distribui panfletos, lê Bílblias, lê mãos.
(Faço pés!)


Certa feita,
haverá ou houve,
não sei ao certo,
embaralha-me o tempo,
uma deusa de extrema maldade que veio a cidade
alimentar-se de homens.
Talvez tenha sido apenas sonho
meu
ou sopro divino,
Mas senti-me digerido
como uma lazanha.

Bebi,
recordo-me bem,
impressionante taça de champanha.
Depois adormeci
por debaixo de uma tamarineira.
Já não havia mais ninguém e o silêncio me agasalhou tão bem...
Você continuava ziquezaqueando
pela noite afora
em bandos,
causando surpresa e espanto.


Adonis K.

Combate





Partindo para as muralhas
rachadas,
empoeiradas
de uma cidade em tragédia,
cruzaram-se seres díspares,
difusos,
oblíquos
corações em sangue,
lágrimas quentes, bombas.
Entre o espírito dos ausentes, uma guerra.
Entre uns, o solidário abraço,
a fome grassando, peste.
Entre outros, a gema do ovo,
vitória esburacada de um corvo.
Vidas partidas em muralhas
rachadas. Vidas de uma cidade
decadente e confusa. Um trem militar,
aviões de reconhecimento,
rações, água.
Ninguém inteiro a vista.
Ninguém a prazo.
Vômitos de laços desfeitos,
cruéis sujeitos a mais nada.
Longas as noites, terríveis os dias
sem pássaros nos céus,
nem guias,
nem deuses,
nem vias.

Adonis K.

Contos da Rua




Coisas de quem come calado
numa mesa de canto
do boteco da esquina.
Observando.
Come de colher, sem salada.
Arroz, feijão, macarrão,
bife e ovo.
Não lavou as mãos.
Não fez a barba.
O sapato furou,
Deus viajou,
esqueceu sua história sem Cep.
Sem conta de luz,
invisível sob as estrelas,
contabiliza sua sina.
Sonhos mansos de viaduto.
Entre o calor do cão corriqueiro,
os faróis. Olhos luminosos,
edredons imensos de jornais.


Adonis K.

Um dia




Uma fase diferente
é o que buscamos para
compor
nossa história ou
sozinhos
estamos sem respostas?
Eis o título, talvez, para a saga
dos certos de que
não importam os fatos externos.
Nem os boatos, nem a direção dos ventos.
A geometria de quem explica
foi carbonizada. Os relógios digitais
demonstram apenas que não há pressa.
Todos os agredidos sabem disso?
Um dia, entre os escombros do futuro,
seres mudos observarão perplexos
o nascer do dia, um dia violáceo.
Toda a poeira das gerações passadas
sobre suas cabeças.
Uma autoclave para esterilizar
os sentimentos. Questão de assepsia.
Uma voz para congregar, voz que não virá.
Uma voz para congelar o medo,
para dizer que perdeu-se o bonde,
as cores, as flores, as histórias
que poderiam ter sido.


Adonis K.

3 de jul de 2012

Cai o Pano







Cai o Pano

Sem penas e sem pedras, 
semi-nú, 
sem grandes ou pequenos, 
nem leve, nem pesado, 
levemente urbano, 
metropolitano, 
sem face, sem máscara, 
estando em qualquer passado 
e no cotidiano,
Cai o pano!


Adonis K.

Sem Saber.







Venho a ti por um encanto,

prá recuperar um pranto

que estou certo

relutei em derramar.

Por acaso, por vertentes

tão sumidas, tão vazias,

por segundos teu semblante

é o que ameniza,

dissecado,

este teu ser.

Sangue rubro na bacia

de alumínio a escorrer...

Escorrendo as horas mortas,

penetrantes,

parte orgânica, perene,

deste amar desesperado

que de pleno, elevado,

é outro ter

conforme sendo,

translúcido,

por nós dois cristalizado.







Adonis k.

Impropérios de um Sábado chuvoso



















Impropérios de Sábado à Noite.

A ladainha dos mesmos,
todos os  dias.
A ladainha e os prantos
dos que
de barriga cheia
choram.
No entanto,
os desencantos bombásticos,
os desencontros diários
as atrizes milionárias da tv,
o "eterno retorno",
o casamento do mês,
nada dizem:
são gestos lúdicos,
panfletários.
Toda capa de revista
traz
um modelo.
Modelo
sei lá
de quê.
De bonitez, talvez.
De emagrecetez. De modez. De nudez.
Há controvérsias...
E os mortais
sobrevivendo aos traumas
da cumplicidade com um mundo
de confetes
e stress.
Há um mundo derretido, derretendo-se.
O mundo que a gente vai comendo,
um bocado por vez.
O que habita o coração do homo-urbanus.
Além da fumaça do trem,
a fumaça é  X-Salada,
X-Burguer,
X-Nada.

Adonis K.

Abantesma


Abantesma

Me fito no espelho
que a parede sustenta.
Me vergo ao peso
dos tempos
que meus ossos
retém.
Me calo diante da turba
que agride o vocábulo,
impropérios
no exato momento
do tédio
que abarca a razão.
Comedido, fito
o reflexo
de meu rosto insano
na água cristalina. Um expurgo!
Guerras de mim mesmo
celebro constrito.
Rodopios, saltos e evoluções
cósmicas,
reticências intrínsecas. Omissões.
Canto o canto da loucura perdida
no desapego das formas sonâmbulas,
laico sopro de versos.
Abalo o sentido da vida
pelas noites,
subterfúgio íntimo,
evasivo recuo.
Estudo experiências vazias,
ao por do sol,
entrelaçando-me ao acaso,
ao imprevisto, a esmo.
Fictício, respiro sómente,
em partes,
o alimentado,
o pesado fardo
do fantasma que criei.


Adonis K.

24 de jun de 2012

Forças




Entre as negras virtudes,
as mais belas,
resplandecentes quimeras
de eu mesmo,
sóbrio.
E no espaço do teu corpo,
singela,
divago meus mortos compassos,
pois soube que eras tudo,
menos hera.
Por tanto apaixonei-me,
tanto tolo, em teu colo,
ledo amor,
adormecido e lento.
Nem as chuvas de junho,
portentosas, admiráveis,
nem os solos de violino,
os pianos em compasso,
teus ombros, largos...
eu sóbrio e o abraço,
nem nada que proclamasse
o vinho.
Algo houve neste instante,
inconcebível,
algo terrível,
único e sublime,
um sopro
para a vida inteira,
um amor
além do mundo.
Vão, um grito seco,
de assombro,
além do mundo,
entre saxofones.
Nos vimos por dentro,
pirilampos, morcegos,
entre os espelhos de  ambos
embaçados, admiráveis, taciturnos.
Éramos sementes de um hino,
singelos campos,
crianças, pequenos,
divinos.


Adonis K.

À Ilharga



Observo
de um degrau menor
a Volúpia do homem de Si,
Do que vive em si e para si,
do que nada vê além. Do estranho.
Levanto-me para vê-la passar,
são tantos seus pajéns...passeata infinda!
Entre a lápide, laje tumular do amor,
o insensato coração de pedra,
glória da ingratidão pelo outro.
Prosseguem, categóricos, sujeito e atributo.
Permaneço imóvel, sombrio.
Os céus proclamam chuvas,
meus modos antigos, desusos.
Visto-me sem o capuz da impessoalidade.
Desnudo-me sem a insurgência do coletivo.
Estou livre! Ando ausente, posto que mudo.
Porém,
nas vísceras do moribundo ser
altruísta,
abominando egoísmos,
amarras,
à ilharga da luz de bons tempos,
um raio com cheiro de vida,
de sólido lastro,
preciso,
conciso,
resiste.


Adonis K.

15 de mar de 2012





Dentro de mim há um canto
Longe de mim lá no fundo
Onde penetro e me espanto
Como se nu neste mundo

Neste lugar lá no fundo

Buscar nem sei bem o que
Busco talvez me encontrar
Como se cego ou se mudo
Como se nu neste mundo

Neste lugar lá no fundo

Trinchado


Trinchado


Sou de mim minha própria prova,
meu consolo e prisão,
sou o tempo no espelho,
(da alma e de suas cicatrizes)
o dedo na pústula,
prior da paixão,
o que desagrega.
Que faço?
Do que embaraço,
embaralho,
idealizo.
Sou de mim o apêndice
na anatomia do ser que componho,
um descompasso.
Traço, qual rastro na areia,
planos, panoramas, lua cheia.
Relaxo, me deixo, me banho, me deito,
sou eu de verdade
no décimo quinto
andar
dos sonhos,
de um jeito sereno,
fatiado,
por partes trinchado em prospectos de farmácia,
pequenos pedaços eternos.

Amanhã Sairei







Amanhã serei alguma incógnita
pichada nos muros
da Redenção. A Redençao tem muros?
Amanhã quem sabe eu não levante
a cabeça dos travesseiros.
A mansarda compreenderá meus afetos.
A mansarda pensa? Sente algo por mim?
Amanhã quem sabe eu não acenda o fogo.
Viva menos.
Saiba menos.
Leia menos.
Tudo é uma questão de sol ou chuva.
Dias cinzentos, corriqueiros.
Dias deploráveis, banais.
Água e sabão. Sabonetes.
Cotonetes, lâminas de barbear,
shampoos e condicionadores.
Condicionadores...
Amanhã talvez eu saia a rua
e me depare com meus medos. Eu sairei.
Encontrar repentinamente, ao dobrar a esquina,
encapotado e com o pescoço elegantemente curvo,
o inimigo. Eu sairei.
Antes de tudo, porém, os sapatos lustros.
O talão de cheques, a pasta e os documentos,
o telefone, os cigarros e o isqueiro, a gravata,
o dinheiro.
Antes de tudo um soluço amargo.
Depois, sairei.
Caminharei na postura habitual,
pigarreando:
Cumprimentando o jornaleiro, o padeiro, o jardineiro,
sairei.
Antes de tudo, porém, os sapatos lustros,
a piedadae insurreta,
o despeito,
o mascar nervoso de um chiclete.

15 de nov de 2010

Pedra bruta a margem do caminho.


Poderíamos ter feito
daquela dança ao vento
uma história
sem precedentes.
A música e a aurora,
o balanço dos corpos,
nossa metátese.
Mas, não! O sim caído
moldou-se ao chão.
As notas descuidadas,
intranquilas,
frouxas,
os sopros arrebatados,
caiados,
os vincos da paixão...
seara restrita de arroubos ligeiros.

Adonis K.

Este nosso Abraço.


Podem vir os poderosos
guerreiros de Esparta,
os gladiadores de Roma,
Os Navajos e os Sioux,
a Cavalaria norte-americana...
nada irá alterar a mansidão dos campos
de Março, nem o abraço solene e plácido
que trocamos entre nós,
figurantes pequenos
deste Grande Teatro de apenas
dois palhaços.

Adonis K

Todos Iguais


Mas era apenas um simples aceno de adeus
nada mais do que um aceno
nem um grande e definitivo
adeus triste solitário e final
Páginas do tempo amarelado e frio
desbotaram
páginas marginais dos tempos esquecidos
puídos
das maquiagens sociais
totalmente profissionais
O inclemente espírito aleatoriamente inserido
o dilacerante
o circense
o psicopata
o cru
Nenhum de nós esconde o trivial
o banal
momento de angústia
o repelente estado emocional
o vício eterno
das virgens,
dos sacerdotes fabricados a bordunadas
de explêndidos mantos clericais e ordens divinas.
Nos alimentamos de pizza
de strogonoff
de salsichas
Nós amamentados atualmente matamos
Nós fomos acariciados e banhados por anjos
mas
Nós agredimos e temos língua ferina
nós somos o bicho
maldito
Nós promovemos a guerra perpétua
entre os seres iguais
Nós somos o Colosso
um caroço
Nós somos um perigo.

Adonis K

Porventura



Eu quisera um peito sem dureza,
um regaço de brandura,
mas de espírito obtuso
fiz minhas partes,
parte ocluso.
Tanto rocha, tanto aço,
quase toda a ferro eu passo
a vil semente,
já descrente do que faço.
Noutros tempos,
há quem saiba
que eu pudera,
de autêntico,
estender sobre alvo campo
meus risonhos, doces cantos.
(hoje lanhos, sangramentos...)
Mas que passa? São momentos?
Não, amigo, são lembranças
de mim mesmo
então tão vivo
que nem lembro.


Adonis k.

12 de out de 2010

Impensável Blues





Foi no interior de um bar
de blues você e eu
eu e você e a banda
que você achou incrível
e eu nem ouvi eu só via
você e nem me lembro
de mais nada.
Uma agitação...
não faz mal que horas são
não faz mal pisar no meu pé
não faz mal que frio!
Um beijo com gosto de soda
limonada e rum,
um beijo com gosto de Amarula,
de tequila queimada. Tudo Blues!

Adonis k.

Piroudoscópio



Eu vou partir
sorrindo
por caminhos doces
como algodão,
colorido poste
de parque de diversão.
Aos domingos vou partir sem volta prás segundas,
pirar um pouco lúcido e um pouco delirante,
vou tropeçar bastante,
vou ler nada.
Assim quem sabe derreter
tal qual
sorvete de casquinha sob o sol.
Tal qual minha vizinha,
coitada,
sofrendo calada em cascata.
Vou abrir esta janela
aos poucos,
prá ver o ar entrando aos goles.
Beber café com Melhoral,
seis injeções de Duotrill,
boas doses de Benzetacil,
Fanta com Omeprazol.
Eu vou tomar um Piroudoscópio letal,
sair fardado de Nabucodonosor
no carnaval, fantasiado de tudo.
Eu saí de casa prá ver o sol nascer.
Choveu, não deu.
Foi padaria na cabeça,
de novo,
pingado com pão e manteiga,
um ovo.
Adonis K.

A vida exaurida.



Não é brincadeira,
é insana labuta e orquídeas,
é suco de uva e bolinhos
de chuva,
reflexões após o jantar.
Saídas de pronto
à francesa,
nas sextas
legumes na mesa.
Café e adoçante,
jornais e revistas,
fanzines e o banho.
Não é brincadeira arrastar a cadeira
pro canto,
vestir-se de abril,
votar no vazio.
Não é brincadeira viver
um momento perdido,
olhar o relógio e correr
exaurido
e subir as escadas aos pulos.
Não é brincadeira morrer
no minuto seguinte
gritando socorro
pro guarda da esquina.
A vida é um baile de máscaras,
eterno retorno
de víscera exposta.
Qualquer que respire
o colosso
aguarde sem choro
a chibata temida.
A vida é de morte - é um circo - de abate e de corte
rondando as alcovas,
velando por nós.

Adonis K.

meu bem



teus passos
macios
no telhado de vidro
eu te vi e ouvi
desde ontem.
o teu canto
e eu nu
sem dizer
que te amo
e o quanto.

te quis sem querer.

é a festa do dia
e a noite
e os dias passando,
é a vida invadindo
mimando os lençóis
e teus passos macios
no telhado de vidro
eu sei quando.


Adonis K.

9 de out de 2010

Adeus é fio de navalha.



Um adeus parece longo mas é
curto e breve
são palavras engasgadas
mudas
quase um sopro do entulho
dos dramas que levam a alma.
Quando muito um abraço
e um laço que a gente
sente
afrouxar.
Um adeus é o tudo
que o mundo
vem dar ,
é o ritmo fora
a cadência
o lamento
um momento sem fotos,
o registro entre corpos
acenos
sorrisos dormentes.
Um instante sem cor
visceral
que fica prá sempre.

Adonis k

Bordel no calor da hora



Um olhar e um sopro
no ouvido
a saliva escorrendo
pelos quatro
cantos
da boca
Maldita!
Mais uma dose de gim...
O cheiro cruel do perfume
barato
e sovaco e sopapo e lotado
estará o botequim.
É sábado e quente,
o relógio e a porta e a porta e o relógio,
o relógio e a porta e o olhar
e a vontade
bebendo por mim.
Apagam-se as luzes
parece teatro
nem vejo no escuro
o que vejo eu te juro
me envolve em cetim.

Adonis K

Reminiscências Indecisas.



A pele macia e um som e um filme
antigo eu vejo na tv da sala da frente
da casa intranquila enquanto o gato de minha irmã
pega um sol na varanda ao lado de uma bicicleta
laranja que foi de meu avô.

O pneu está furado.

Duas plantas enormes ao lado do portão
da frente e mais uma menor no corredor.
Um tio cego de bengala sempre mau humorado
batendo na porta do banheiro
irritado e nervoso e eu assistindo
um comercial de shampoo.
A linda modelo sorri, eu a beijo,
ela está apaixonada e eu tenho um cavalo veloz.

Papai chega do trabalho.

-Boa noite, tudo bem? Fez suas lições? Foi bem na prova
de matemática? Que filme é esse? Não tem nada prá fazer
a não ser ficar na frente desta maldita televisão? Vai ler
um livro vai lamber sabão vai pro seu quarto vai comprar pão.

Vovó ronca alto.

Nem sei como foi que o tempo fechou, enferruscou-se de repente
e tudo ficou cinza e um vento forte arrancou as cortinas e bateu
todas as portas e janelas e trouxe muitas folhas secas até a sala
de visitas que minha mãe havia encerado e veio uma chuva como
nunca vi igual. Esquecemos o cachorrinho no quintal
e eu me arrependo até hoje de não ter ido lá fora buscar.
Eu não tive coragem. Ele morreu.


Adonis K.

8 de out de 2010

Boate Azul


Cantos por dentro
da Boate Azul,
som azul,
difuso organismo,
difusos batons escarlate
e carmim,
Dançarinas
megeras sinistras tarântulas negras,
docinhos de pera,
amendoim.
Entre Brilhos
nos meios,
sutiãs sorrateiros,
dinheiro
sem fim.
Lamentos efêmeros, caldos
de cana,
baralho, bilhar,
calcinhas vermelhas...
Chicken Broth my God sem mim!

Noites que brilham
na noite de prata
do homem que dança
sem pressa,
no abraço ligeiro,
A Carteira.
Nos cantos
por dentro bebendo
a ressaca do outro: Agenor
da Silva Pereira,
o doutor.

Mulheres redondas,
risonhas
prá ele,
são dele as risonhas mulheres
de pernas
redondas
do dia do outro
na cama e a carteira.

O couro esquentando...
(Do caldo caliente
de bocas pequenas, Galinãs hermosas!)
Torradas douradas
na noite arranjada
das gatas peladas
por dois mil reais.
De Brinco & Colar nuas todas as gentes.

Cerveja gelada luz tênue Abajur
colorido
e certezas apenas
pequenas,
os gozos restritos.
Coisas da porta prá fora. O céu
não se vê
do bordel.

Adonis K.

Quando porventura respirou-se entre nós



Quando estive em certos lugares
de mim mesmo e de outros raros
em ocasiões distantes daqui e
de agora
era outro

Havia um ser e um candelabro.

Quando o justo imaginário
e as festas de aniversário
dividiam risos e apagavam
velas
todos nós éramos um fato

Havia seres e anjos anônimos.

Quando as rugas vieram
cobrindo adúlteras a alma
e o desespero da noite
de quem vai morrer
tomou forma

Havia flores e pássaros mudos.

Quando enfim tomamos rumo
e nossas vestes transparentes
refletiam o escuro
tateávamos um mundo de eras
com mãos invisíveis

Havia vida nos jarros de barro.
Éramos poucos e éramos tudo.


Adonis K

4 de out de 2010

Caminho e ninguém necessário.



Impressionante! Não há companhia
para alguém que veio só,
transeunte de agoras. Não há lembranças
que cheguem,

que vazem

transbordem nas mentes. Nada que eu diga
fará este metal derreter
nas formas de hoje.
O ferreiro está taciturno.
Nenhum cão guardou a casa que não suportou.
Taciturno o vento lúgubre e
nenhuma alma nos campos,
ninguém.

Todo o mal liberto vagando e funda
está
a revolta e a dor,
onde há dor e há dor tanta,
não há volta.

(Signatários em ternos escuros,
impassíveis. Gente rude, enregelada.
Nos dedos, anéis.)

Tortos caminhos doravante sóbrios,
úmidos,
por vezes largos,
tortos e onipresentes,
ambíguos.

Nenhum cão acompanha o homem só.
Nenhuma lembrança (nem sombras).
Transeunte de agora que sobe
a montanha. Largos caminhos,
veredas, pocilgas, tapete de plantas,
vertente de água que lambe o lugar.

Adonis k.

Quando vi já era nós.



Foi muito mais divertido
o que o homem trouxera
escondido
debaixo do braço. Era um brinquedo estranho...
O parque estava repleto de cantores.
Nem mesmo a fonte cessara de jorrar,
água límpida em todas as direções...
Era primavera. Fomos livres.
Nossos passos o encontro a relva,
tudo o que a vida nos beijou!
Era clara a manhã de nós dois os olhos
e o brilho da alma liberta às pressas
dos escombros.
Nenhum de nós deu corda
nos relógios,
nenhum chorou o abraço
mas fomos juntos
pra onde
o tempo solto nos levou.

Adonis K.

2 de out de 2010

The end sem fim



uma vela acesa
o calor de toda uma vida
apagou-se de vereda

imediatamente

alguém abriu a mala
repleta de manuscritos.
Houve falas.

um tempo houve
breve tempo
um sopro apenas

uma vela acesa
sobre a lareira
sobre a lenha
sobre a telha.

Tão triste o canto...
um sopro apenas
um sussurro.


Adonis k.

Abraço fraterno e voz à León Felipe Camino Galicia



Varrer as cinzas
do que ficou
da alma tênue
por quê?
Se tênue, que fique
livre
de varreduras
(que arranham o ventre
de gente de fato)

que não anda prá trás
que não anda prá trás

Cinzas que o vento leve.
Cinzas que flutuem.
Que cinzas jamais
coloridas
reacendam
coloridas
reacendam mágoas,
Nos limites da resistência,
à ilharga
de todos os abraços.

"Toda la luz de la tierra
la verá el hombre
por la ventana de una lágrima...”

E nos vamos de moto sorrindo enquanto o amigo nos envia um recado.
O amigo nos envia seu peito apertado.
O amigo nos quer bem
a seu lado, leio.
E leio:

“... mi éxodo es ya viejo.
En mis ropas duerme el polvo de todos los caminos
y el sudor de muchas agonías”.

E a estrada vem gorda de curvas,
pungente,
cheia de precipícios a arrepiar
beijando
o ronco dos motores poderosos.
Há um tronco e alguém sobre ele,
sentado, alguém fuma sobre ele,
inquieto.
Sobre ele um mundo:

“Te espero...
en algún sitio estoy esperándote...”

E já não espero que cinzas perenes,
descuidadas,
intranquilas,
mordazes,
satíricas,
sobreponham-se as nuvens
do quintal de todos nós,
ciganos sem ilusões.
Nós e os nossos varais metafísicos
no colorido tardio dos lençóis,
dos lençóis
dos
ciganos sem corneiras.

então me vem
de dia e de noite
também,
num bote,
León Felipe Camino:

“Tuya es la hacienda
la casa
el caballo
y la pistola.
Mía es la voz antigua de la tierra
y me dejas desnudo y errante por el mundo.
Más yo te dejo mudo... ¡Mudo!
¿Y cómo vas a recoger el trigo
y alimentar el fuego
si yo me llevo la canción?”

(remando)

E com a vassoura dependurada
num prego,
num prego qualquer,
enferrujado,
para nunca mais varrer,
ao lado de grandes bacias
d'água
despeço-me do
rio que me alimentou
os rins
na casa que este amigo
um dia disse:

“De rodillas. Escuchad.
La Justicia se defiende con una lanza rota y una visera de papel”?


Adonis k.

Varais em Dó Menor



Calei
o que queria
gritar
do alto do prédio,
calei-me com a boca
costurada
pelos fios
das amarras do mundo.
Um mundo pequeno,
sem vales,
sem mares,
contido na mala
decrépita,
(sem nem um sorriso)
surrada valise de viagem.
Calei-me diante
do imenso varal colorido,
lençóis estampados,
blusões pesados,
intrigas.
A voz que não saia,
embutida.
O abraço contido,
o chorar escondido,
o jamais.
Calei-me por dentro,
mas cá entre nós, você sabe:
Sentei-me diante dos anjos,
por entre demônios em brasa,
e sem recuar
os meus olhos
falaram por nós.

Adonis K.

Por saber que horas são invado o sonho.



Caí do mundo,
lamento.
Foi no chacoalhar do tempo,
num instante.
À beira dos caminhos deitado
fiquei
emudecido e pasmo.
Mas foi quando nem me lembro,
foi num sonho tardio que nem sei.
Crepitava o fogo,
luz na escuridão.
A oca.

Resgatado em eras maias,
talvez
na Festa do Sol,
vesti-me de lua.
Era um sonho...outra época.
Já não mais soterrado
por magias,
por mandalas salvo e os guias
eram pajés, índios antigos,
gente da mata,
Aicanãs e Jarauaras,
Panarás.
Com eles
fumei o cachimbo da Paz...

Caí do mundo numa tarde de setembro.
Eu lembro...
Chovia muito, estava deitado.
Uma rede colorida, o frio,
o dia escuro. Um círculo
na fronteira imensa,
a floresta vazia habitada.
Paraparás, Andirobas,
hostes de Tatajubas.
Saguis e Guaribas, Pintadas,
em silêncio
um Sauá me observa.
Há um som, range a rede.
Cantorias...Eu sofro
variando
da febre malsã da maleita!
Não era eu, era o Espírito
verde.
Vi Jurema me embalando.

Na Delicatessen da avenida Paulista
peço um Expresso com Creme
e
um pão de queijo,
presunçoso.
Pago e saio fumando.
É proibido fumar.
Agora está
tudo proibido e alargo
o passo e me apresso.
Eu sei,
tenho uma reunião marcada
há dias
com os chineses
da Texas Corporation Inc.
Provávelmente chegarei atrasado.

Nivelo o corpo, ajeito a gravata, vejo as horas
no Rolex Datejust Romanus Azul
que ganhei
por ser
o
Funcionário do Ano
em 2006,
e me acabo
num táxi
nervoso
buzinando
eu sei lá com quem.
Chove e o dia é escuro,
eu vejo
muitos guarda-chuvas negros
cruzando passarelas pichadas
de uma selva de concreto.
Pálidas pessoas e ratos e a atmosfera
é de guerra. Encerro o pleito.
Tanto faz se é Abril ou Maio,
Junho ou Julho,
tanto faz...
eu sonho Janeiros.


Adonis k.

Toda lembrança sem fundo musical



Ainda vejo o poente
em minha alma debruçada
na janela da casa ausente.
Eu era um ser pequeno,
um pirralho,
fragmento.

Grandes mistérios,
então,
cercavam-me a mente:
a vida das minhocas,
o pinto no ovo,
o arco-íris...
O que eram?

Nas tardes de chuva grossa
o aroma forte do café quente,
biscoitos de araruta,
portas cerradas,
velhas rezadeiras e brancas
velas acesas.
Os Santos vários,
os santos e a Nossa Senhora dos Aflitos.

Ainda me vejo debruçado
na janela
da casa
dos dias de meu pai
chegando.
O tinido arrepiante das esporas
soando
pelo longo corredor
eterno,
sempre às escuras.

Ainda me vejo,
nebulosamente,
mas há muito
que morri.
Perdi o senso.

Sou a sombra, agora,
o vulto.
Sou o que é distante.

Nem o sol, nem a lua,
nem o dia
ou a nascente,
nem a noite.
É o fantasma, agora.
O luto.
Deserto extenso
que sem pressa
estende um manto
por inteiro.



Adonis k.

Ferrocarril



Ao lado de casa,
mi casa pequena
(Mi casa está en Paranaque)
corre o lindo trem que vem das colinas...
O vermelho e alguns azuis,
desbotados, abusados
apitando sempre,
meu coração ferrocarril de aço
de algemas.

Ao lado de casa ciscam galinhas
douradas,
listradas,
de pescoço pelado.
Poedeiras.
Vivem ao lado
do ferrocarril prateado.
Meu mudo coração de vargem,
sem margem,
rasgado.

Ao lado de mi casa
usted,
ferrocarril que assopra
meus varais de camisas e calças
e lençois manchados.
Meu ferrocarril de ouro e mi casa perdida,
meu coração amargo e surdo.
Quintal sem muro.
Um negro violão de cordas frouxas,
um negro amigo sob a lâmpada acesa
do absurdo.

Adonis K.

Em vários pratos me alimento



Mas de vida entendo pouco
que de morte tenho tido
tantos
vários pratos numa noite.

Mas de vida pouco
nada entendo
que de noites me alimento
em vários pratos
de tormento.

Como
quando a luz difusa
em queda brusca
assim me arranca
e me arrebata
e me suspende.

Vocifero.

A íris em suspenso,
órbitas loucas.

Nada importa em sol ardente.
Arde apenas.
No deserto
é tudo prata
pois
a noite,
a esfera longa,
prateada
cobre o ventre
flamejante
dos planetas deste espaço
entre meu sono
e o ser ausente.

Adonis K.

Descendo a ladeira de bicicleta vermelha e chovia



Eu escrevia
algumas cartas
simples
que jamais enviaria.

Dentro de mim além
de estômago e rins
alguém mais.

Houve um tempo bravio
de estrelas demais
e cometas sem fim.

Eu escrevia e ria
o que muitos de nós
jamais entenderia.
Era certo o final do jamais.

Cantei a um mundo caduco
meus hinos de paz.
Ouviram? Foi mais um gemido
de menino,
um livro de bicicleta vermelha
ladeira inteira da vida abaixo
e chovia.

Adonis K.

12 de jul de 2010

Retrato



A má sorte que persegue
o tão pouco que restou
da vida morna de nós quatro,
me abastece o fígado ruim.
Quarteto fantástico! Tempos idos...
Hoje a sacada com a samambaia
podre pendurada,
o gato preguiçoso e eu,
o mesmo da foto 3x4 que sorriu,
entre o pó.

Adonis K.

Laços



Embalou-nos a rede preguiçosa
no pomar
de nossa infância.
Hoje nos vemos por messenger,
antiquados videntes
do que está por vir.


Adonis K.